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sexta-feira, 3 de março de 2017

ALEGRIA


Tantos temores assombraram a casa da infância; o risco de desabamento, as chuvas que não cessavam, os horrores do banditismo urbano, a violência enclausurante do toque de recolher. Eram tantos os empecilhos para o exercício da cidadania; o feijão era pouco na panela, a voz era seca na garganta, os irmãos eram muitos na casa e as divisões das sobras eram sempre maiores. Os resultados precários, as vidas minúsculas, os morros cada vez mais encharcados de gentes de todas as cores, de muitos lugares, umas vivas e outras caminhando até quando dava. 
Eram tantos riscos, tantas lutas, tantos sonhos dispersos num cotidiano bruto. 
Eram tantos amores, eram tantos que nem dava para contar na multidão. 
Olhei para o céu e vi o cristo reluzente acima de uma comunidade também acesa de alegrias passageiras. Sensações e desejos misturavam-se naquele sobe e desce de fantasias e realidades de trabalho de um ano inteiro para adentrar a avenida. 
Era a caminhada para a letargia dicotomizada do carnaval. A vida, a vida mesmo, explodiria na avenida, ela que na quarta já seria cinzas. 
Carnavalizando,carnabalizando, carnalterando, sem chance de retorno. 
Tantos morros desceram para a folia, tantas vidas sumiram em fantasias e só se via brilho e alegria. 
Essa era a magia, a fuga de uma realidade perversa que retorna todos os dias, e por isso, fugimos para brincar sempre que oportuno. Com nossa sorte, com os poucos recursos, transitórios, nada sobrando para o dia seguinte. 
E ficaram colares para uma próxima folia, quem sabe com um pouco de esperança para além da fantasia. 
Ele, pequeno, brincou na multidão até o final do dia, depois, dormiu nos braços da mãe ouvindo o som ensurdecedor de machinhas e sambas.
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