quarta-feira, 23 de maio de 2018

SERTÃO por Fabiane Vitiello



Se há algo nessa vida que adoro presentear ou ser presenteada é um bom livro. E para minha alegria ontem ganhei um novo. Esse já estava sendo bastante aguardado. Nos bastidores, vez ou outra, recebia notícias do livro. Pequenas vantagens de ser próxima ao autor! Adooooro esse tipo de regalia.
Sertão ( ou seria Ser tão ?) me envolve logo nas primeiras páginas. Palavras sensíveis expressas tão belamente no texto. Palavras como ritual, intenso, frestas, estática, sobras, caudaloso, entre outras que estalam em meus lábios e ressoam em meus ouvidos. Palavras que me tomam nos braços, me acolhem e buscam em mim uma outra história, a minha.
A entrega é total. Leio e referências de outros autores passeiam pela minha cabeça. Autores que também compõem a minha história.
Rubem Alves com seu pássaro que insiste em colorir suas asas em lugares distantes.
Zeca Baleiro com seu beija flor que trouxe consigo seus beijos saudosos.
Saint Exupéry com seus diálogos entre a raposa e o príncipe nos lembrando a importância de ser cativado.



Ou ainda, Manoel ( por quem ando vivendo um caso de amor explícito !) com seu Bernardo que virou passarinho para compôr o amanhecer.
Amanhecer tão presente no dia a dia de Tonho, personagem da história.
Não seríamos todos nós um pouco ( ou muito ) de Tonho ? O impulso de estar juntos não norteia nossas ações ? Não esperamos pelo amanhecer desde que nascemos como uma forma de reencontro ?
Sim, essa é minha crença- nos deitamos todas as noites, desde o nascimento, sedentos pelos reencontros que a vida nos permite. Tudo deve ter começado com um recém nascido que necessitou do reencontro com o peito da mãe  todos os dias para alimentar - se. Daí por diante os reencontros mudam de configuração, mas permanecem presentes.
O que seria de nós sem a possibilidade de um reencontro ?
Reencontros diários que marcam nossos caminhos. Reencontros que tornam- se infinitos ainda que tenham ocorrido em um piscar de olhos. Reencontros que, assim como o pássaro, entram sem pedir licença em nossas vidas e nossos sonhos. Reencontros que nos fazem SER TÃO esperançosos na busca de um novo amanhecer.
Fabio, obrigada por SER TÃO bom com as palavras e fazer chover lágrimas em meus olhos.

Fabiane Vitiello é Pedagoga, Formadora de Professores, sócia-fundadora da Diálogos Assessoria, Mãe do Pedro e uma querida amiga.

domingo, 20 de maio de 2018

ERA LEMBRANÇA DE FRIO por Fábio Monteiro


Era lembrança de frio. Um frio cinzento no trópico de capricórnio. 
Era ausência de chuva, de tempo, de alento. Mas imaginava para além do concreto um frio ainda mais gelado num grau extremo de nada ventar. Era  frio de ausência, num lugar cheio de prédios, numa vida silenciada por inúmeros retrocessos, num chão batido e seco, levando tudo e todos para o mesmo lugar.
Metrô, ônibus, trânsito, trabalho, retorno, cansaço, tempo passado, tempo tomado, tempo revolto. Criança chorando, velho dormindo, televisão ligada, microondas quebrado. Sofá rasgado, cachorro latindo, tarefa de casa das crianças para cuidar. Marido bêbado, novela sem nexo, vida sem rumo, bolo queimado, mãos travadas, joelho cansado, pés descalços.
Pés descalços, ao menos isso, pés descalços. 
Era noite, o dia já acabara como havia começado; cansado, exausto, um nada para viver no sofá, na cama, no sono. 
Era, nada mais que era, um frio de capricórnio inexistente, uma vontade de olhar infinitos, vislumbrar oceanos, ver sol descer sobre prados e campos  no meio de um nevoeiro. 
Mas só tinha prédios a frente do infinito que olhos não podem alcançar. Só tinha desesperança num tempo sem tempo nessa vida  de nascer, trabalhar e morrer. Na mente que não cessa no presente e busca futuro como se não esgotasse o tempo, como se não houvesse nada além dos ganhos, como se na materialidade do dia a dia não coubesse o afeto, as coisas mais simples num lugar de descanso. 
Hoje eu acordei no trópico de capricórnio e com uma vontade de frio para desaquecer meus ritmos, minha inquietações e meu desejo de olhar o sol descendo para aconchegasse num lugar simples. 
E que venha frio para desaquecer os trópicos. 

Fábio Monteiro - 20/05/2018 
Num dia de frio.