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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O ESTADO DA FLOR por FÁBIO MONTEIRO

     Colaboração entre Olivier Baussan e Joana Lira, ilustradora e artista gráfica brasileira.


O estado é a representação da situação, o estado das coisas.
Pode ser mais que isso, mas também menos que o esperado pelos cidadãos.
Estado opressor com poder em dizer não para tudo que é imanente, e sim, para coisas perecíveis, insensatas, inconsequentes.
Esfera de poder que tem capital e  território também.
Representação desfigurada do sólido numa sociedade tão líquida.
Evaporação dos sonhos, fruição das insignificâncias.
Dilatação nas extremidades - do apelo à necessidade, do sublime à pieguice conjuntural.
Não há estado de tranquilidade na desesperança que os caminhos dissimulados ofertam.
Tanto estado, tanto status, tanto sentimento estatizado para nada.
Nessa economia malthusiana, toda nossa de todos os dias, poucos resistem.
Se há estado, ele também sobrevive minguado.
Num lugar em que o soberano governa por entre nuvens, distante das leis, nublado que nem elas, pouco resta a perguntar pelo futuro das crianças, por caminhos possíveis, por transformações significativas.  
Afora poucas horas num estado perene de solidão e angústia,
sobra um pouco de tempo para pensar nas flores. E elas são tantas, não é?
A primeira vez que as vi foi num sonho, depois na vida, depois em tantas memórias:
Amarelas, rubras, murchas, espinhosas, calamitosas, funerárias.
Tantas no sol a sol,
na chuva temporalizada, no sertão duro, no mar profundo,
e acho que as vi também em alguma imersão discretamente humana.
No lugar que nasci, num outro que escolhi, na fronteira da desistência.
As flores assombram em suas quantidades e formas, e sobram nas suas diversidades e gentilezas. Nas resistências e incertezas, no virtuosismo e perfume.
E no estado vaporoso de tempos incertos, e conspiratórios,
quem dera um dia retornar ao mundo flor resistente de mandacaru,
 bela como só ela.

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