No livro A menina que contava, a personagem Alga enxergava números nas coisas. Ela gostava dos números e os números gostavam dela. Desde o velho casaco, presente de sua mãe, com seus inúmeros botões até as estrelas mortas e seus anos-luz, Alga contava tudo... Inventava histórias sobre descobridores só para calcular os dias da viagem e era somas e multiplicações das 24 horas pelos 60 minutos vezes 7 dias para se chegar ao fim do mundo... Sabia calcular sem usar os dedos... perdia nas competições de classe só para calcular de novo e manter os amigos... A menina contava tudo... até os minutos que levaria para chegar o socorro, quando escorregou no caminho de volta pra casa. Contava os centímetros enquanto crescia... Até que, aos 20 anos, encontrou um rapaz que contava histórias e com ele se casou. Juntos tiveram dois meninos e para não acumularem milhões e milhões de coisas como todo mundo faz, começaram a dividir suas experiências com os outros. Com um projeto gráfico de criatividade incalculável, desenvolvido por André Neves, essa obra vai deixar no pequeno leitor um gostinho de: Ah, conta mais!!!
É o texto que me leva à leitura. Texto, digo e repito, palavra e imagem. Palavra e imagem que nem sempre necessitam ser ilustradas, salientes. O silêncio e o vazio falam à criança e ao jovem leitor. A ausência também, também o mistério. E quanto mais forte e leve for o texto, mais longe vou... E não posso deixar de assinalar que, cuidadoso, o trabalho com a linguagem de Fábio Monteiro tem se revelado aberto para a leitura em voz alta.
Todos os dias verificava se havia alguma correspondência na caixa do correio. Cada vez que a abria e nada encontrava, a angústia da espera aumentava. Naquele tempo, os minutos, horas, dias eram mais longos que hoje. As distâncias também. O mundo era grande e muito diferente do que imaginamos hoje. Mal conhecíamos o lugar em que morávamos. As cartas levavam dias para chegar a seu destino. Claro que isso tinha certo charme – entre a espera e a chegada, criava-se um misto de ansiedade e alegria em receber notícias das “gentes” de longe.
Em seu livro, Fábio Monteiro conta a história de Giramundo, um menino que inventa línguas e lugares, mas inesperadamente passa a receber mensagens de um remetente desconhecido, de um país que ele apenas sabia ficar do outro lado do oceano... São cartas que vêm de Angola, de um amigo de Luanda. Na correspondência feita de papel e coincidências, os dois meninos começam a descobrir um ao outro através da palavra escrita e do espanto... A trama passeia entre discursos, do mundo comentado ao mundo narrado, do exercício epistolar a uma amizade sem fronteiras, traço da própria identidade, rumores do tempo a que pertencemos. Um Giramundo de cá, um amigo de lá. Como construir pontes de solidariedade e conhecimento?
Entre perguntas e respostas, o silêncio tudo amarra. Cada um dos personagens (e também o leitor) descobre que não está só. A correspondência entre os dois meninos, de um modo bastante significativo, atravessa de novembro de 1985 a março de 1986. Apesar de 10 anos independente da colonização portuguesa, Luanda aguardava ainda a retirada das forças estrangeiras em um cenário movimentado por uma guerra civil que duraria quase três décadas. No intervalo criado pela narrativa de Giramundo e seu amigo distante, o momento histórico talvez seja uma sombra desconhecida e tênue que vai se preenchendo apenas da vontade de receber a próxima carta; no entanto, é uma fração do tempo que o livro traz para ancorar, a todos nós, em nosso presente...
Cartas a povos distantes, de Fábio Monteiro, tem as ilustrações e o projeto gráfico assinados por André Neves (Paulinas, 2015).
“E, quando não aguentou mais o peso do conhecimento,
Ele me convenceu que “a vida é feito pulga e que não é preciso ter pernas pequenas para brincar de criança”. Confesso que não compreendi tudo sobre a metáfora da pulga, mas afinal, alguém compreendeu tudo sobre a metáfora da vida?
Giramundo conhece todos os livros de geografia e cartografia possíveis para sua idade. Pratica horas e horas de línguas inventadas por eles para os lugares desconhecidos. É um ‘mexedor’ de mistérios, no tanto que mexeu acabou que mexeram com ele.
Um dia recebeu um envelope. No lugar do remetente somente o enigma ‘novo amigo’. Dentro, um papel amarelado trazia a localização geográfica e uma data de origem. Algo oco, surgido do nada e sem saber pra que é o convite que se espera para a curiosidade acelerar.
Luanda. África.
Quem diria que um novo amigo vinha de tão longe…
Eu também gostaria de ir para Luanda, mas ainda não fui e é por isso que imagino. Até misturei no ritmo da nossa conversa um maracatu, afinal as minhas pernas longas não me impedem se brincar de criança. Cantei para Giramundo a canção de Alceu Valença enquanto ele me contava sua história.
Outro menino se juntou a nossa roda. Veio dizendo que “se de tanto insistir – pena vira antiquário, cabelo vira penteado, nariz cheira tempo bom”; contou que ele vingou depois de sete. “Foram de quatro em quatro: quatro saias e quatro calções. Eu, pequeno e já barrigudinho, nasci de rebento, final da cadeia produtiva. Último, caçula, dizem que o mais paparicado entre os meninos e meninas. No íntimo, sabia que minha mãe e meu pai não “miguelavam” carinho para os outros, mas comigo, no silêncio das minhas fantasias e desejos, o doce era um pouco mais doce”.
Respondi pro menino caçula, que minha sorte foi ser a primeira. A primeira de um trio de filhos, a primeira neta de uma dúzia tem sempre a vantagem da novidade. Claro que eu sabia que a avó, o avô, assim como os pais com o trio, não faziam diferença entre a criançada. Mas era a primeira, o doce um pouco mais doce.
E se Giramundo lia os mapas do mundo, o menino caçula vinha espalhando livros de poesia, Castro Alves, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, na mesma estante em que reinavam memórias de Emília, Pinóquio e Alice. Sim, respondi aos dois que os livros também me vieram dizer alguma coisa. Fiz força para lembrar de uns realmente bons, mas Giramundo insistiu com cruzar o oceano para alcançar Luanda e eu acabei cantarolando:
“Navegar é preciso, viver não é preciso.”
E não disse nada sobre a Pessoa que tinha inventado aquilo.
O novo amigo. Sim, o novo amigo de Luanda é assunto ainda para Giramundo contar. Fábio, o menino caçula, teve tempo de dizer que viajou muitas vezes nas bibliotecas da Escola Cônego Rochael de Medeiros e João Barbalho no Recife (essa última também frequentada em outros tempos por Clarice Lispector); “foram meus pontapés para uma leitura do prazer na infância. Foram tantas histórias, tantas viagens para mundos tão distantes dos meus, foram tantos percursos feitos com a língua, a linguagem, a fantasia do corpo lançado ao desconhecido”.
Talvez tenha sido por causa disso que Fábio inventou Giramundo…
“A escrita veio diluída nisso tudo. Primeiro os gestos, depois as palavras, depois o registro, depois a subversão. Escrevo subvertendo a ordem, desafiando o sentido, instigando o leitor a pensar sobre o não dito. É assim que gosto, é assim que uso a palavra pensada-escrita-falada, não necessariamente nessa lógica, não necessariamente como comando. A palavra manda em mim. Ela vai saindo e virando ideia. Toma forma, vira história e não é mais minha.
Isso me interessa como leitor e escritor.
O livro “Cartas a povos distantes” aconteceu nesse desejo. Uma maneira de escrever para o outro, um encontro com outro que também está em mim. Esse outro que abre um livro e espera o desvelar de uma história que precisa dele para ser completada. Um encontro entre criador de palavras e imagens com alguém que a transforma em subjetividades e fantasias.”
Giramundo se calou para ouvir a voz do dono da voz. É como o personagem fica quando o autor conta de onde ele surgiu. Fica “observativo” para fazer o jogo da invenção de palavras.
Fábio Monteiro é meu novo amigo escritor. Não é de Luanda, mas me fez viajar o desejo de encontrar terras distantes com seu novo livro CARTAS A POVOS DISTANTES (Editora Paulinas), ilustrado por André Neves, esse outro amigo que sabe brincar com imagens e palavras sem perder a curiosidade da criança.
Engraçado que eu cantei Alceu Valença para Giramundo, personagem do livro, sem saber que Fábio Monteiro assim como André Neves são meninos do Recife.
Então, Luanda, Luanda, venha nos contar sua história que é a nossa, histórias de povos que viram no navegar a vida imprecisa…
PERSONAGENS DOS LIVROS JÁ LANÇADOS - COMO NATUREZA, CARTAS A POVOS DISTANTES E A MENINA QUE CONTAVA. A ILUSTRAÇÃO O CENTRO, SERÁ LANÇADO EM AGOSTO.
A
escrita veio diluída nisso tudo. Primeiro os gestos, depois as palavras, depois
o registro, depois a subversão. Escrevo subvertendo a ordem, desafiando o
sentido, instigando o leitor a pensar sobre o não dito. É assim que gosto, é
assim que uso a palavra pensada-escrita-falada, não necessariamente nessa lógica,
não necessariamente como comando. A palavra manda em mim. Ela vai saindo e
virando ideia. Toma forma, vira história e não é mais minha.
COLEÇÃO ESPAÇO ABERTO INDICAÇÃO: a partir de 10 anos (leitor fluente) 96 páginas " Dois mundos. Uma carta. Um mistério. Uma história que rompe a distância de um oceano inteiro, para desaguar nas fronteiras que unem o Brasil e a África. As guerras podem ser evitadas as amizades não." Em "CARTAS A POVOS DISTANTES", o escritor FÁBIO MONTEIRO compartilha com o leitor a história de Giramundo, um menino, que com suas invencionices, costumava impressionar muito uma plateia de 'supostos' amigos. Ele conhecia todos os livros de geografia e cartografia possíveis, mas tinha a mania de inventar lugares e idiomas que não existiam. Giramundo se relacionava com as pessoas de um modo bem particular. "No fundo do peito, era difícil para Giramundo ter tantas ideias e ser tão sozinho com todas elas. Era como se a imaginação não encontrasse tempo e espaço corretos para existir. Giramundo era todo alegria em aproveitar o tempo para criar amizades inventadas e lugares desconhecidos. E muitas vezes brincava só, porque assim não havia perigo de "rompidão". Dizem que tudo no mundo gira e que o que é de baixo vem pra cima, tal qual roda de vento, formiga em buraco - mistérios da vida que se encarregam de nos ensinar sobre nossos malfeitos. Com o Giramundo não foi diferente. De tanto que mexeu com essas histórias e línguas de povos distantes, de tanto que brincou com o desconhecido destino, de tanto que fez, de tanto que aprontou, um dia recebeu, com surpresa, um envelope de um lugar desconhecido, sem nome do remetente, o primeiro da sua vida. Dentro, um papel amarelado pelo tempo, linhas em branco com localização geográfica e data de origem, e nada mais." Esta primeira e misteriosa carta, vinda de Luanda, rompeu a distância e a imensidão de um oceano e acabou atando duas pontas de uma verdadeira amizade, pois as trocas de cartas continuaram por anos e anos... Giramundo, que vivia inventando histórias, acordou para vida. Descobriu muitas coisas: tinha conquistado um amigo verdadeiro, podia conhecer o mundo sem sair de casa e descobriu que não precisava mais mentir, pois histórias verdadeiras tinham um sabor especial. Por trás da história de Giramundo, o leitor vai encontrar um sentido crítico que vai desde a luta pela liberdade de Angola até a guerra civil no país, que matou milhares de africanos, fez milhões de refugiados e causou danos ao patrimônio público. Mas tudo envolto numa linguagem que revela compaixão e fraternidade. O texto de FÁBIO MONTEIRO, escrito com apuro de linguagem e com muita sensibilidade, emociona e revela-se com algumas entrelinhas para, pouco a pouco, serem preenchidas pelo leitor. O escritor FÁBIO MONTEIRO, que é também historiador e professor, no posfácio do livro, apresenta nota sobre cartas, memórias e amizades, traçando um paralelo da história de Giramundo com a sua própria história de vida. "CARTAS A POVOS DISTANTES" é um livro envolvente e comovente! Esta obra reúne, ainda, muitos outros pontos interessantes. Todos estes pontos, aqui destacados ou não, sem dúvida, imprimiram à história de Giramundo emoções, que irão ecoar mesmo depois que o leitor fechar o livro. AS ILUSTRAÇÕES:
CLIQUE NA IMAGEM PARA AMPLIÁ-LA No livro "CARTAS A POVOS DISTANTES", as ilustrações e o projeto gráfico, assinados por ANDRÉ NEVES, são uma atração inegável. O colorido forte da capa não aparece nas ilustrações do miolo do livro, onde os tons pastéis e a monocromia figuram com muita elegância. As ilustrações deste livro são impactantes e instigantes. Com um traço que é só seu e sempre fiel ao seu estilo, o ilustrador constrói, através das imagens, uma narrativa própria, para contar a história de Giramundo. O projeto gráfico do livro é bastante expressivo, explora recursos que compõem muito bem este trabalho e despertam a atenção do leitor, em alguns pontos, como por exemplo: o colorido forte da capa / capa com abas / uso da cor na parte interna da capa e abas / ficha catalográfica sobre folha envelhecida / sumário em página dupla tendo como fundo o mapa de Angola, vários selos do país e papel envelhecido / a numeração das páginas / fontes diferenciadas das cartas... Todas as soluções gráficas encontradas pelo artista conferiram beleza ao projeto e tornaram o livro mais atraente.